Este é o blogue agregador da cadeira de Estratégias de Comunicação referente ao ano lectivo 05/06 no Isla Gaia.
Os jornalistas são como os parafusos; é preciso dar-lhes a volta para eles cederem...





«Publicidade oculta»

March 31, 2006

(Luis Salgado de Matos, Público, Segunda, 27 de Março de 2006, pág. 7)

«Entre as nossas instituições informativas há uma criatura tão atípica que nem tem nome certo: agência de comunicação social, ou uma coisa “a modos de assim”.
Estas agências recebem dinheiro de institutos públicos e empresas privadas para colocarem nos jornais notícias favoráveis aos pagantes e evitarem as críticas. A pedido da agência, o jornal publica notícias revelando a extraordinária actividade do gestor público Sicrano, ou a espantosa eficácia da empresa Chispêtêó - e não revela que o Sicrano quer ser reconduzido, pagando para tanto com o dinheiro dos impostos, ou que a Chispêteó faz facturação enganosa, à custa do público e portanto do leitor. As notícias a pedido parecem ser mais frequentes nesta época de assembleias gerais.
Parecem, pois o fenómeno é oculto. Melhor: só é conhecido quando essas agências fazem publicar nos jornais a publicidade gratuita dos novos contratos que assinaram.
Haverá algum problema no esquema? Talvez não. Essas agências tratam de pequenas coisas: se não for o Sicrano a dirigir o Instituto das Cremações Ligeiras, será o Beltrano. As agências são inócuas? Não são; fazem pedidos eficazes: após a publicitação dos contratos das ditas agências com o Sicrano e a Chispêteó, lemos nos jornais mais notícias, mais favoráveis, sobre o Sicrano e a Chispêteó - e nenhuma desfavorável.
A imprensa perde. Com efeito, os jornais tentam ter o monopólio da intermediação entre o leitor e a fonte; por isso, apresentam todas as suas notícias de modo a que o leitor perceba sem margem para dúvidas quem é o seu autor: artigos assinados; as “cartas ao Director”; a publicidade, que em geral se distingue por si própria; a “publicidade redigida”, imitando os artigos de jornais e por isso assinalada; as “notas oficiosas”, hoje uma raridade, em que o governo obriga os jornais a publicarem certos textos, que são aliás a única excepção ao poder absoluto que a lei dá ao director de recusar a publicação de um texto. Aquela exibição assegura ao jornal o seu monopólio da intermediação da informação escrita entre o leitor e as fontes. Os jornais só cedem o seu monopólio às agências de comunicação escondida.
É um mistério sem ser um milagre que a imprensa se preste a publicar estas notícias a rogo, deixando que outros vendam às ocultas o seu espaço e prestígio, pois, sendo séria, ela própria lança dúvidas sobre a sua seriedade. Fá-lo-á porque estas notícias são uma publicidade de segunda? Porque são a condição implícita na publicidade de primeira? Porque uma ínfima minoria de jornalistas tem uma agenda oculta?
Mesmo que este esquema seja um serviço público desconhecido, há um problema: o esquema é escondido ao leitor. O leitor lê uma notícia a rogo, julga ler o jornal dos jornalistas e, sem o saber, lê a publicidade oculta de um instituto público ou de uma empresa privada. Para evitarem um conflito de interesses, os jornais só deveriam publicar esses artigos precedidos do aviso: “Prosa a rogo”.
»

Comments »

The URI to TrackBack this entry is: http://estrategias.blogsome.com/2006/03/31/%c2%abpublicidade-oculta%c2%bb/trackback/

No comments yet.

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>


Get free blog up and running in minutes with Blogsome | Theme designs available here

blogouve.se@ gmail.com


  • Entrada:
  • Meta: