Sumário: A assessoria de imprensa; relacionamento com os jornalistas; a desregulamentação; o vai-e-vem
1) A assessoria de imprensa é a disciplina das Relações Públicas que se destina a estabelecer relações com os jornalistas; é a assessoria que se coloca entre os jornalistas e os protagonistas, com o objectivo de conseguir para estes a veiculação de mensagens positivas através daqueles:
2) Destinando-se a estabelecer relações com os jornalistas, com o objectivo de os convencer do mérito das suas mensagens (que eles as publiquem…), o jornalismo torna-se o campo de recrutamento ideal para a assessoria de imprensa. Ninguém, melhor do que ex-jornalistas, sabe o que querem/como pensam os jornalistas – o que é que é notícia e como é que pode ser notícia;
3) O vai-e-vem entre jornalismo e relações públicas é um problema sem resolução em Portugal (coloca problemas éticos, mas não tanto deontológicos, uma vez que nada o impede, desde que a carteira profissional seja entregue na CCPJ ao começar a exercitar a assessoria de imprensa); O jornalismo só é incompatível se exercido em simultâneo (estatuto do jornalista; art 3º)
Ligação: http://www.clubedejornalistas.pt/DesktopDefault.aspx?tabid=239 ou http://contrafactos.blogspot.com/2004/12/vitamedias_15.html (texto de síntese que recomendo vivamente)
4) Problemas éticos: alguém que trabalha como assessor de um político vai depois entrevistá-lo como jornalista? O grau de condicionamento ou dependência; A informação privilegiada, obtida noutro âmbito, será legítima? Criar um período de quarentena (de nojo)?
Ligação: http://www.geocities.com/CollegePark/4230/comu.htm
5) A questão da dependência: o lugar de assessor, sobretudo na política, pressupõe uma questão de confiança pessoal (provavelmente mais do que profissional), que se revela em cumplicidades e comprometimento; quanto mais confiança, quanto mais cumplicidade, mais dentro das questões – incluindo as mais melindrosas – estará o assessor (na próxima aula “o assessor mente”);
6) As relações públicas são uma actividade desregulamentada (ao contrário do jornalismo), o que se reflecte em diversos factores, como o do vai-e-vem ou do próprio nome dos assessores (directores de comunicação, portavozes; consultores de comunicação)
7) Importa perceber que o conceito de assessor clássico (aquele que elabora “press releases” e fala com os jornalistas) está ultrapassado; é redutor; o assessor – como se viu na aula passada – é sobretudo um estratega de comunicação: está no núcleo restrito que tem responsabilidades na detecção das necessidades/objectivos até à monitorização do impacto (está em todas as fases). Poucos são os que não idealizam uma estratégia de comunicação (uma ou mais do que uma…), fazendo parte integrante dela;
8) Jornalistas têm de se habituar a um novo tipo de raciocínio: quem lhes liga, chama-se o que se chamar, não é o inocente colaborador de umpolítico que pretende publicar umas notícias; quem lhes liga é um agente participativo numa estratégia concertada, nada inocente portanto, que está envolvido em várias fases do processo – quando mais ambiciosa for a entidade representada ou a iniciativa em causa menos incocente é o contacto;
(ou seja, designar assessor até pode ser muito redutor)
O jornalista é inocente ou tem consciência? À medida que as estratégias de comunicação são mais complexas também são mais subtis, mais dissimuladas; para que o jornalista não perceba e não aumente as defesas (não desconfie); ora – voltando ao princípio – quanto mais dissimulada precisar de ser uma campanha, mais subtil, mais precisa desde o início da intervenção dos assessores na sua definição, logo na origem!
9) Outsourcing: Algumas entidades optam pela contratação não de um assessor mas de uma empresa de conselho em comunicação (relações públicas), que apresenta várias vantagens e desvantagens (a possicbilidade de integrar várias pessoas /competências no processo versus a confiança pessoal). Em muitas circunstâncias, as entidades têm um assessor (com este ou outro nome), que faz a ligação com a administração, e uma empresa contratada (depende das necessidades/ambições);
10) Como convencer os jornalistas: com boas campanhas de comunicação (com informações que tenham valor mediático), bons eventos, boas acções de marketing; ou pela via financeira (corrupção); este acaba sempre por ser um mau caminho (comprar um apenas, um em cada, e se este falha ou é substituído na redacção; dá nas vistas? E se o próprio denuncia; como se chega a um jornalista corrupto; quanto custo? Sabe-se?)A corrupção dos jornalistas faz parte da mitologia dos empreendedores: famosa frase de Bernard Tapie (para quê comprar um jornal quando se pode comprar um jornalista?”) ou aquele político brasileiro que disse: não dês notícias a um jornalista que quer dinheiro nem dinheiro a um jornalista que quer notícias…
Ligação: http://ouve-se.blogspot.com/2005/12/as-boas-e-ms-prendas-de-natal.html
Um caso final, para tentarem explorar com alguma investigação (por ser o mais conhecido em Portugal): Fernando Lima, jornalista, foi durante dez anos o principal assessor de imprensa do primeiro ministro Cavaco Silva. Quando este abandonou a política activa, Lima voltou ao JN. Alguns anos depois, com a vitória de Durão Barroso, Lima voltou à assessoria, agora do ministro dos Negócios Estrangeiros Martins da Cruz. E daí saiu, quase de imediato, para director do Diário de Notícias. Nesta altura, Fernando Lima é outra vez o principal assessor de Cavaco Silva.